Passou rápido. Eu nem senti o vento de outono, não fiz tudo que quis e nem tirei aquela minha barriguinha. Hoje é o amanhã que eu faria tudo, e ontem eu não fiz nada. Todos os dias eu acordava com uma ruga nova e imediatamente fugia da velhice com aquele creme que me devolveria uma pele lisinha e uma aparência juvenil. Não queria envelhecer, não podia pensar que estava ficando feia e logo morreria. Temos tantos pensamentos negativos sobre a velhice que antes mesmo que ela chegue já nos desesperamos e nos preocupamos com aquilo que é inevitável.
Até que certo dia, resolvi fazer uma geleia de ameixa e enquanto escolhia as ameixas mais maduras do mercado eu me dei conta do que eu estava perdendo ao evitar a velhice. As ameixas machucadas, com cicatrizes e quase podres, são as que fazem a melhor geleia. Então porque eu queria tanto ser uma ameixa verde?
Paramos no tempo quando devíamos aprecia-lo todos os dias, devíamos nos apreciarmos cada dia mais e não querer ser sempre como fomos aos vinte anos. Porque também nunca seremos como aos quinze, nem como aos nove anos. Nosso corpo e nosso rosto nunca serão como ontem. Pois todos os dias de sua vida, o ciclo da vida segue, o tempo passa e você simplesmente muda. Não tente fugir disso.
Hoje eu tenho algumas dezenas de anos e me orgulho cada vez mais delas. Não passei mais o creme milagroso, que na verdade, nunca fez efeito. Não pintei os cabelos e admito ter adquirido um charme extra com o meu grisalho. Um dia me olho no espelho e vejo outra pequena ruga nascendo e se juntando com as já existentes e não exclamo mais o quanto estou velha, pelo contrário, aprecio como eu sou porque aprendi a conviver com as mudanças do meu corpo e me amar até com a flacidez dos meus braços. Aprendi comprando ameixas, que se você realmente quiser, você consegue se apaixonar pelo seu corpo todos os dias, e deixar de lado os preconceitos da velhice. Porque a sensualidade e a beleza não acabam quando você passa dos 50.
Imagem: Fotografia do holandês Erwin Olaf.
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